sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Estuda, tchê: O Negro no RS

Sendo comemorado hoje o Dia da Consciência Negra, trago a vocês um pouquinho sobre a história deles em nosso Estado. O Rio Grande do Sul, dentre as províncias brasileiras, foi uma das que recebeu o menor número de escravos, uma vez que o negro africano não se adaptou ao clima e nem aos misteres da criação do gado.

Sabe-se que os primeiros escravos, que chegaram ao Rio Grande do Sul, vieram com os tropeiros e sesmeiros para trabalharem nas estâncias, currais e condutores de tropas para Sorocaba. Depois, em 1737, os primeiros colonizadores portugueses, quando fundaram, o forte Jesus – Maria – José, na barra de Rio Grande, também os trouxeram.

No Rio Grande do sul, o negro também foi comprado como mercadoria, através do Porto de Rio Grande. Depois, foram traficados e escravizados, em maior número, pelos próprios produtores de carne seca, nas estâncias de gado (Pelotas) e nos primeiros municípios.

Os negros foram povoando a província do Rio Grande do Sul ao lado dos índios, paulistas, lanceiros e aventureiros. Nas charqueadas, os negros trabalhavam duramente e muito padeceram os piores castigos. Dormiam em senzalas, eram chicoteados por feitores e não aguentavam o serviço de matar o boi e salgar a carne por muitos anos.

Já nas estâncias, como peão de gado, de cavalo, tiveram tratamento mais brando, com menos desumanidade, que nas charqueadas, mas não escaparam dos serviços pesados e da crueldade de alguns fazendeiros, como conta a lenda "Negrinho do Pastoreio".

Foram bem melhor tratados, mas realizavam as tarefas mais árduas das fazendas. Os negros, como peões de fazendas, tiveram uma vida mais amenizada, mas, no entanto, foram os carregadores das pedras e os construtores dos muros delimitadores das extensas fazendas da fronteira gaúcha, pois o arame só surgiu após a Guerra do Paraguai, e as divisas da época eram as árvores, rios lagoas.

Mais tarde, diante da disputa por terras e gado, os estancieiros resolveram fazer cercas de pedras e mangueirões. Muitas casas dos municípios da fronteira e as próprias estâncias foram construídas pelos escravos. A maior parte dos escravos foi libertado pelos movimentos abolicionistas, que surgiram, na província, em 1884. Em maio de 1888, havia poucos escravos.

Em Pelotas, por ser o grande centro das charqueadas, foi o maior foco escravista do Estado. Os negros foram tratados com muita rudeza.

Segundo Maestri, a historiografia não faz referências, especificamente, a quilombos no Rio Grande do Sul. Quando registra a existência de algum, o faz rapidamente, e apenas de passagem, sem maiores explicações ou comentários.

Mas sabe-se, que os negros fugiam e se organizaram em quilombos nas campanhas. O tipo de quilombo que se rapidamente e raramente é citado é o "quilombo pastoril", localizado nas campanhas povoadas pelo gado chimarrão. Os negros abatiam o gado selvagem, extrair o couro, os chifres e outros acessórios para vendê-los aos aventureiros portugueses ou castelhanos. Abrigavam nos seus quilombos, brancos e índios, mas mantinham o controle da comunidade e do processo de produção.

O gaúcho foi o tipo étnico e social produzido por tais quilombos. Mais tarde, quando a técnica do aproveitamento da carne para o charque levou os portugueses e castelhanos a se utilizarem das pastagens, os negros se refugiaram nas campanhas mais escondidas, e dedicaram-se à criação de gado.

O professor Mário Osório Magalhães acredita que, na primeira charqueada, já trabalhavam negros escravos, quando montada às margens Arroio Pelotas, por José Pinto Martins.

Em 1870, quando a escravidão estava quase no final, Fortunato Pimentel, em sua obra "Aspectos Gerais de Pelotas", cita 35 charqueadas e 2800 escravos, os quais trabalhavam muito. Os escravos das charqueadas vestiam apenas um calção de algodão rústico, estavam sempre com as mãos e os pés tingidos pelo sangue do gado. À noite, dormiam acorrentados em senzalas. Na charqueada "São João", de Gonçalves Chaves, construída, em l808, e conservada até hoje, a senzala ficava a uns 200 metros da residência principal. Numa geminada à senzala morava o feitor, com sua chibata.

O senhor Chaves, tido como um dos charqueadores menos severo e mais humano, tratava seus escravos com exagero de severidade. Nas paredes da charqueada "São João", em Pelotas, ainda restam alguns instrumentos utilizados no castigo a escravos. Eles podiam ser martirizados com uma gargantilha de ferro ou grilhetas nos pés. Aqueles que não desistiam de sonhar com a liberdade tinham a perna amarrada a uma bola de ferro (com mais ou menos 20 Kg), presa por grossa corrente. Com isso, pode-se imaginar o que os negros escravos passavam nas demais charqueadas, um vez que o charqueador Gonçalves Chaves era um dos mais humanos.

Por ironia do destino, esses negros fabricavam carne seca para alimentar escravos das fazendas de cana - de - açúcar do Nordeste do Brasil e de outros países. Foi o braço negro que transformou Pelotas na então "Princesa do Sul", a cidade mais aristocrática e capital da cultura do Estado.

Os negros também serviam de escravos nas estâncias de criação de gado, e assim tornaram-se hábeis cavaleiros, domadores, resistentes tropeiros de mula para São Paulo e Minas Gerais, domésticos e guerreiros de respeito.

Em 1867, o Coronel Brandsen, que serviu com Napoleão Bonaparte, invadiu Bagé a serviço do exercito argentino, surpreendeu - se com a qualidade das casas do povoado. Os escravos lutaram em todas as revoluções enfrentadas pelo Rio Grande do Sul e Brasil. Todo o negro guerreiro era rústico e disciplinado. Faziam a guerra a base de recursos locais. Comiam se tivessem alimentos e dormiam em qualquer lugar, tendo como teto o firmamento do Rio Grande do Sul. A maioria montava a cavalo quase sempre em pelo.

Nas guerras de fronteira contra o Uruguai, Argentina e Paraguai, o negro serviu de "Bucha de canhão" e mostrou seu valor.

Na guerra dos Farrapos, o "corpo de Lanceiros Negros", comandados pelo orgulhoso tenente Joaquim Teixeira Nunes, casou furor contra as forças imperiais. O próprio Duque de Caxias reconheceu que David Canabarro baseava sua maior força nos lanceiros negros. Na guerra do Paraguai, os negros lutaram contra Solano Lopes.

O coronel Francisco Pereira de Macedo, então Visconde (depois Barão) do "Cerro Formoso", criou uma banda musical integrada por negros, pois gostava de ouvir óperas durante as refeições. Contratar o maestro Thomaz do Patrocínio, irmão de José do Patrocínio, para instruir os escravos. Esta cena pode parecer irreal para época, numa província quase despovoada, mas aconteceu no município de Lavras do Sul. Bem afinada essa banda abrilhantava solenidades e bailes de Lavras do Sul, Caçapava do Sul e arredores.

Quando da visita de D. Pedro II ao RS, por ocasião por ocasião da tomada de Uruguaiana, na Guerra do Paraguai, a banda de negros da estância do Cerro Formoso, executou o Hino Nacional, para receber, com honrarias, seu mais ilustre visitante, recém chegado do Rio de Janeiro.

Em 2 de dezembro de 1884, Santo Antonio das Lavras, município de Caçapava do Sul, para comemorar o aniversário de D. Pedro II, libertou seus escravos em massa. Foi no RS, mais precisamente em Pelotas, o maior centro escravista do Estado, onde surgiu o primeiro jornal abolicionista – "A DISCUSSÃO" de propriedade de Fernando Luis Osório, em 1881. Talvez fosse ele o primeiro, no império em negar-se a publicar anúncios de vendas, fugas e aluguel de escravo.

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